A conversa sobre segurança da informação amadureceu rápido. Em 2025, muitas empresas entenderam que a proteção de dados não é um “assunto do jurídico” e nem um projeto que se resolve com uma política no papel. É operação. É continuidade. É a capacidade de provar, com evidências, como os dados são tratados, protegidos e governados.
Em 2026, esse movimento acelera por dois motivos simples: pressão regulatória mais clara e ataques mais eficientes, mais baratos e mais difíceis de detectar. Do lado regulatório, a ANPD vem publicando agenda e prioridades que dão previsibilidade sobre fiscalização e normatização, incluindo foco explícito em temas como direitos dos titulares e proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Do lado das ameaças, relatórios globais seguem apontando crescimento de ransomware, exploração de vulnerabilidades, envolvimento de terceiros e golpes centrados em identidade (credenciais). Abaixo, reunimos as principais tendências para orientar decisões práticas em 2026, com foco em empresas que precisam reduzir risco sem perder velocidade.
1) Segurança e privacidade viraram “requisito de contrato”, não diferencial de marketing
A mudança mais importante é silenciosa: a exigência se deslocou para a cadeia inteira. Clientes e parceiros querem evidências (e não promessas) sobre como sua empresa controla acesso, responde a incidentes, retém dados, atende titulares, gerencia fornecedores e reporta riscos.
No Brasil, isso tende a ficar ainda mais forte porque a ANPD vem reforçando planejamento e execução regulatória, com agenda para 2025–2026 e atualização com prioridades para 2026–2027, o que aumenta a previsibilidade do que será cobrado. Em paralelo, ações de fiscalização já miraram itens básicos de governança, como presença de encarregado (DPO) e canal de comunicação adequado.
O recado prático para 2026: não basta “estar adequando”. Vai ser cada vez mais necessário comprovar.
2) Identidade é o novo perímetro: credenciais roubadas seguem no centro dos incidentes
A maioria das invasões bem sucedidas não começa com “hack sofisticado”. Começa com credencial válida: senha vazada, reutilizada, capturada por phishing, exposta em malware, compartilhada sem controle.
O Verizon DBIR 2025 destaca, por exemplo, que em ataques de “Basic Web Application Attacks” uma parcela muito alta dos casos envolve uso de credenciais roubadas. Isso explica por que 2026 será o ano da consolidação de controles como:
- MFA bem implementado (não só “ligado”);
- Gestão de identidades e acessos com mínimo privilégio;
- Revisão periódica de acessos e perfis;
- Gestão de credenciais de contas de serviço e integrações.
3) Ransomware continua forte, com mais extorsão e mais impacto operacional
Ransomware não é só criptografar. O padrão de extorsão (vazamento + pressão reputacional) continua, e o foco em “alta interrupção” está crescendo: atacar o que para atendimento, logística, produção e faturamento.
O recorte SMB do DBIR 2025 aponta aumento relevante da presença de ransomware no conjunto de violações analisadas, além de dados sobre redução do pagamento mediano e aumento da proporção de organizações que não pagam, sinalizando maturidade maior em resposta e recuperação. Ao mesmo tempo, notícias recentes mostram como ataques podem gerar disrupção em serviços críticos e amplificar o custo real além do resgate.
O recado para 2026: ransomware é menos “evento de segurança” e mais “evento de continuidade”. Backup sem teste, plano sem simulação e comunicação sem governança viram prejuízo.
4) Exploração de vulnerabilidades e “edge devices” ganha espaço como porta de entrada
Uma tendência que vem crescendo é o uso de vulnerabilidades conhecidas (e às vezes com patch disponível) como vetor de acesso inicial, especialmente em ativos expostos e equipamentos de borda.
Análises do DBIR 2025 destacam crescimento do uso de exploração de vulnerabilidades como vetor inicial, além de aumento em falhas em dispositivos de borda e crescimento de ransomware no conjunto de incidentes.
Como isso se traduz em 2026:
- inventário de ativos expostos deixa de ser “boa prática” e vira base;
- gestão de patch precisa ter SLA por criticidade;
- varredura contínua e correlação com exploração ativa ganham prioridade;
- segmentação de rede e contenção rápida reduzem raio de impacto.
5) Terceiros e cadeia de suprimentos deixam de ser “cláusula no contrato” e viram risco mensurável
Ataques via fornecedor são eficientes: eles “pulam” controles maduros e entram por um elo fraco. E isso vale para software, serviços, consultorias, integrações, plataformas e até agências com acesso a sistemas.
O Financial Times citou que, com base no DBIR 2025, a participação de terceiros em violações teria subido para cerca de 30% em um recorte analisado, reforçando o salto do risco de supply chain. (A leitura aqui é simples: mesmo que sua casa esteja organizada, a casa do vizinho pode incendiar a sua se existe conexão sem controle.)
Em 2026, governança de terceiros tende a incluir:
- classificação de fornecedores por criticidade e tipo de acesso;
- due diligence de segurança e privacidade proporcional ao risco;
- exigência de evidências (políticas, logs, testes, incident response);
- revisão de contratos e cláusulas de notificação e responsabilidade;
- monitoramento contínuo de terceiros críticos.
6) IA acelera o social engineering: golpes mais convincentes e “menos detectáveis”
A IA não é “o vilão”, mas está mudando o jogo do atacante: e-mails, áudios, textos e páginas falsas ficam mais naturais, contextualizados e convincentes. Em outras palavras, o “bom senso” sozinho não escala como controle.
O ENISA Threat Landscape 2025 registra observações sobre proliferação de sites fraudulentos que se passam por ferramentas de IA e distribuição de malware, além de menções a ataques mirando cadeias relacionadas à IA.
O que fazer em 2026:
- treinamento contínuo com simulações e métricas;
- políticas de dupla checagem para transações e mudanças sensíveis;
- verificação por canais alternativos para pedidos “urgentes” e “fora do padrão”.
7) LGPD: de conformidade “declaratória” para conformidade “auditável”
O Brasil também vive sua curva de maturidade. Em 2025, a ANPD reforçou que fiscalização e medidas preventivas fazem parte do jogo, e houve movimentações e documentos que sustentam competência para adoção de medidas e multas diárias pelo descumprimento em contextos específicos.
Além disso, a ANPD formalizou prioridades para 2026–2027 e atualizações relacionadas à agenda regulatória, com destaque para temas conectados ao ambiente digital e proteção de públicos vulneráveis.
Conclusão: 2026 é o ano da prova, não da promessa
A tendência é clara: segurança e privacidade estão migrando para o campo da execução, evidência e continuidade. O mercado não quer mais ouvir que você “se importa com dados”. Quer ver como você opera quando algo dá errado, como você controla acesso e como você governa seu ecossistema de fornecedores.
Se 2025 foi o ano da conscientização operacional, 2026 tende a ser o ano da cobrança prática.
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